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domingo, 30 de setembro de 2018

Indicação de Livro: "O Poder do Agora"

Unknown

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Excelência: a pedra filosofal moderna

Luiz Henrique Lopes


A excelência tornou-se algo implacável na sociedade contemporânea. Em uma resposta simples ao título deste texto, poderia afirmar que tudo isto surge a partir da alta demanda por informações e conhecimento proporcionada pela Revolução Científica, além da busca incessante pela tão cobiçada qualificação requisitada para o ingresso no mercado de trabalho.

Entretanto, essa é uma resposta batizada e casada, por mais que seja verdade. A busca pela excelência na atualidade é muito mais que um simples fenômeno histórico. Basta notar que excelência tornou-se sinônimo de superioridade para perceber que essa qualidade passou a ter um papel crucial, independente de idade, raça, gênero ou nação, em nossa cultura. Tudo isso graças a uma rede complexa e intrínseca, que liga as pessoas diretamente através dos anseios internos e pressões proporcionados pelas relações interpessoais de cada indivíduo.

Joãozinho é uma criança de 14 anos. Ele busca a excelência na escola porque é pressionado por seus pais, jovens adultos, para que tenha uma vida “digna” e não precise ser pressionado no trabalho, assim como eles o são por seus chefes, donos de empresas, coordenados e sustentados por um mercado cada vez mais exigente. Em decorrência disto, o dono da empresa explode com sua filha, que por sua vez, namora com Ricardinho. Procurando a excelência no namorado, ela termina com ele depois de várias tentativas frustadas de fazê-lo aprender a tocar flauta irlandesa. Ricardinho, angustiado pelo motivo tolo do término, revolta-se e desconta tudo em seu irmão mais novo, Marinho. Com apenas 4 anos, Marinho absorve a raiva do irmão e aprende a odiar também.

Na perspectiva maquiaveliana somos seres desejantes. Buscamos a excelência no outro porque almejamos aquilo que não temos, suprindo a necessidade e o desejo a partir de algo idealizado. Algo familiar acontece com a inveja, uma resposta básica ao desejo aparente por aquilo que pertence a outrem. Em síntese, Bernado Soares, pseudônimo de Fernando Pessoa, foi extremamente feliz e categórico ao afirmar:
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito.

Com isso, organização e planejamento tornaram-se rotina para a maioria das pessoas, uma vez que estes dois aspectos pressupõem (ou pelo menos maximizam as chances) a excelência. Os dias passaram a ser metódicos, de tal maneira que se algo sai do controle, há estresse e raiva. As interações não possuem mais o charme de antes, são curtas e previsíveis. Os beijos e as demonstrações de afeto foram substituídos por emoticons pré-determinados para cada situação. Os manuais se tornaram populares ao passo que os livros de filosofia foram substituídos por receitas prontas para uma vida de sucesso.

Acontece porque somos humanos e fazemos parte de uma cultura. Somos alimentados por ela inconscientemente, seguimos padrões comportamentais, muitas vezes considerando-os úteis e benéficos para o ser. A procura pela excelência não é diferente: pode parecer algo admirável, de grande relevância e demonstração da boa ambição (ser melhor sempre), porém, traz consigo consequências drásticas para o desenvolvimento emocional das pessoas. Não é á toa os números mostrarem que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo, um número cada vez maior, visto que nenhuma doença teve maior crescimento em 10 anos como a já considerada “doença do século” (18,4% de 2005 a 2015).

A excelência é importante, mas o equilíbrio se sobressai. Não importa o quanto tente, uma característica inevitável de todo ser humano vai prevalecer até o fim dos tempos, o grande problema é que com ela não há perfeição: o ser humano é errante. Aceite sua falha e assuma o risco.

Como sempre seremos humanos, nunca seremos totalmente excelentes. Somos alquimistas. Eis a pedra filosofal moderna!

sábado, 2 de junho de 2018

O saber viver

Unknown

"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."
Sêneca

Aplausos iniciaram o vídeo. Em seguida, acompanhada de dedilhados de guitarra e da excitação de uma plateia vibrante, Elis Regina- um dos mais consagrados nomes da música popular brasileira- inicia com vigor sua apresentação.
 Ela pressiona contra si o microfone, elucidando a energia de uma mulher brasileira através de seus murmúrios denodados. A bela mulher de cabelos curtos revela ao seu amor as coisas que veio a aprender com a vida; trocando, desse modo, os momentos exatos contidos nos discos, por experiências, nem sempre salutares, cujo sentido se aplica unicamente à esquina.
 Elis não quis cantar o amor que não é experimentado, o amor preso aos acordes e lirismos. Todavia, abriu seu coração para exprimir uma canção que nos entrega, denunciando-nos assim “Como nossos pais”, tal qual seres confusos e perplexos com a realidade do viver; este viver simplesmente singelo, que de nós escapa com frequência.
 Na poesia desses versos, a cantora advertia sobre a realidade que não se encontrava delineada nas linhas, mas que se manifestava nas ruas, como no murmúrio de uma gestante com dores de parto.
Outrossim, mediante aos arrolhos perpassados em cada estrofe declamada, aproxima-se à memória de cada interlocutor atento, a catarse semelhante ao medo real e expressivamente desapercebido de quando se corta o cordão umbilical ou muda-se a passada; rememora-se o medo de correr na esquina em dias de chuva, de frear para não ter que colocar os pés no chão ou de trocar de posição, de olhar com os olhos de alguém que não sou eu, mas que, contudo, assim como eu, pensa, existe e se alimenta. Um alguém no mundo, na esquina, um alguém que é como o retrato na parede, empoeirado e vazio.

“Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não me enganam não!
Você diz que depois deles,
Não apareceu mais ninguém.
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então, eu tô inventando;
Mas é você que ama o passado e que não vê!
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...”

Elis Regina foi heroica naquela noite. Sua bravura encontra-se descoberta na expressão voraz de uma amante da arte, que se fez artista e, se fez na arte. Seus medos foram revelados, sua alma foi rasgada na garganta quebrantada, desesperada e igualmente desbotada pelas lágrimas de jovens esquecidos, traduzidos na canção por meio da expressão de um desejo: o desejo de saber viver.
Confessar nossas crises muitas vezes não é o caminho mais conveniente para emular o passado e se ver livre da culpa, entretanto, as coisas só se fazem no actus sensus de nossas crises.
Saber viver não é uma fórmula matemática com algarismos e igualdades. Se assim fosse, seria como a resposta de uma raiz quadrada negativa, identificada através do estudo de pequenos ou grandes números complexos, que mais ou menos representam a vida com seus altos e baixos.

+Leia Também:
Qual o sentido da Felicidade?
A nossa angústia de cada dia

O saber viver é a poesia de um coração selvagem, que luta porque necessita, que reconhece poder ser quebrado, mas que tenta enfrentar seus defeitos, suas incompletudes e ausências de ser.
Apesar disso, não se pode dizer que a música interpretada por Elis Regina possa ser comparada ao canto de um liberto. Contudo, é evidente que há liberdade nesses versos, visto que originam-se da força de um grito sincero, como o de um filho ao perder sua mãe ou o de uma mãe a se ver sem seu filho. Além disso, as palavras amarradas à canção cumprem a função de metaforizar a verdade existente nos desencontros de uma vida, que passa como o disco na vinheta. De outro modo, Elis ironiza a tentativa de executar mudanças, pois:

“Apesar de tudo, tudo, tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais.”

A verdade dessa interpretação está na pessoalidade com a qual a artista se faz de eu lírico e toma as concretudes de alguém, invertido na confluência de pensamentos, emoções, sentidos e expressões. Destarte, é possível facilmente identificar que as fases pelas quais se encontram cada ouvinte da música é que determinarão a intensidade com a qual tais palavras atingirão seu ego impactado, o que é irrelevante, haja vista que todos estamos perdidos no saber viver, porquanto nos arranhamos nas diferentes cercas que construímos em torno de nossas verdades e modelos de vida pessoais.
Uma noite foi suficiente para que a cantora aferrolhasse as depreensões individuais, e envolvesse a todos em uma bolha de reflexões e perspectivas; tornando-se o ponto­ chave de tais premissas. O saber viver é algo inconclusivo, entretanto, é nobre e palpável; desde que a ele sejam destinados devida energia e dedicação, para seguir em frente mesmo quando a maioria dos porquês permanecem para sempre como incógnitas.
 Por fim, não importam as condições bem como as intempéries no meio do caminho, caso haja, em seu modo de viver uma forma espontânea e livre como na interpretação de Elis, que foi livre em sua decisão de revolta e em sua interpretação furiosa e emocionada.
 Refaça, portanto, suas estruturas, acerte seus ponteiros, caminhe em sua construção mesmo que ela desmorone, visto que este é o saber viver, este é o caminho, o ninho e o pássaro.

 “A única coisa que devemos temer é o próprio medo”
- Rossevelt, Franklin.

“É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.”

Woolf, Virginia.

domingo, 13 de maio de 2018

A nossa angústia de cada dia

Unknown

Uma carta de suicídio sem remetente; um anonimato sem culpa, sem como e sem por quê. 

É possível que a presença sombria de um talvez melhor pudesse expressar as palavras sentenciadas a seguir. Sem dúvida, a existência certa de um talvez concreto, pudesse ser melhor compreendida do que essas linhas desordenadas. No entanto, elas são a única coisa que eu tenho agora, a única coisa que me restou e que estou apto a compartilhar.

Não quero arrancar de vocês suspiros, nem quero que chorem por minha morte. Bem provável é, que meu desejo mais voraz seja o de deixar a cada um de vocês, a lembrança inóspita de um luto proibido, um luto com lágrimas roubadas, lágrimas que deixaram de escorrer pelos olhos. Aprendi com o tempo que as expectativas se fazem de sonhos banais, sonhos simples, como aqueles construídos na rotina de uma vida comum. O desejo de respirar numa montanha rarefeita melhor traduziria minhas palavras, mas nem todos podem escalar essa montanha.

Não existe em nenhuma dessas linhas qualquer resquício de esperança. Não reside nelas nem fé e nem prece, o que existe é apenas um grito sufocado de quem sobreviveu a mais um dia. Se estiver interessado em prosseguir com essa leitura, saiba que este é um caminho sem volta, uma vez que tenha optado por imergir nele, jamais poderá retornar à superfície, ainda que saiba exatamente qual seja o caminho de volta.

Se estas palavras pudessem exprimir um som, qualquer um que fosse, este seria descompassado como o choro de um recém-nascido com cólica. Cada linha é uma nota sem tom, um fremido disperso de quem fala e tenta ser compreendido, um pensamento desesperado de quem tenta mostrar sua intenção, mas que se perde na configuração dispersa das formas, que constituem o viver da vida com suas condições!

A vida é o diretor e nós somos o elenco desajustado, sujeito à mudança de roteiro e de cenários. Sorria mais- ela diz! Seja mais forte, seja mais magro, seja mais inteligente, os outros estudam enquanto você dorme, alguns malham enquanto você come pizza e se empanturra de doce! A vida grita e você obedece sem querer obedecer, como um fantoche controlado pelas mãos de um condutor aborrecido, que não se importa com limites e nem com o psicológico. Você só quer fugir sem ser notado, todavia ela te pega pelas mãos para te relembrar dos defeitos que, outrora, você estava disposto a esquecer.

A tinta preta dessas linhas revela as chagas profundas que jazem sobre mim, chagas de um relacionamento no qual a fêmea apanha do macho, sempre sujeita à criação abusiva de uma cultura misógina e machista. São dois órgãos que se encaixam na cama, mas cuja penetração somente ao macho dá prazer. A fêmea aguenta calada, aos tapas e arranhões, ela conta os segundos e minutos, rememorando longinquamente a existência de um homem que um dia a ela ofereceu rosas vermelhas, vermelhas como o sangue que agora escorre de suas partes inflamadas. São parceiros esquecidos, humanos que se desencontraram entre as influências de um tecido social mal projetado; homem e mulher: eis a criação de Deus!

Na nossa angustia de cada dia, encontra-se o menino de 5 anos abusado sexualmente por dois primos drogados. Nela está também a garota gorda do 7º ano, chamada de burra pela professora de matemática, que não impediu que seus colegas rissem de sua resposta algébrica equivocada. Nessa angústia de cada dia está a empregada negra que não pôde ir à escola. Está o menino autista escondido em casa pela mãe que não o permite ver o mundo. Está também o jovem viciado, que faz programa para não ter que roubar seus pais, ele descobriu há pouco que tem HIV, mas fazer o quê? Sem camisinha paga mais!

Nessa existência angustiante encontra-se a mãe, que tenta explicar para os seus filhos que depressão não é frescura, mas uma doença que rouba a sede de viver. Nessa existência angustiante, mora o idoso explorado pelos netos, que roubam-lhe a aposentadoria, deixando-o à míngua, com fome e necessidades. Tudo isso está contido nesta existência bandida, neste luto negado, neste choro de recém- nascido.

A nossa angústia de cada dia é o grito que você recusa ouvir, é o eco perdido no espaço-tempo, que jamais regressará ao seu emitente. Nossa angústia é a oração não atendida, é a liberdade negada e o perdão cujo sentido foi desbotado pelas lágrimas no retrato. Não me leve a mal pelas palavras não maquiadas, pelas lágrimas não permitidas, por você não ter o direito de chorar!

Porque você viu e não fez nada! Nem ao menos consolou a garotinha perdida no parque procurando por seu pai. Negou 2 reais para o mendigo na calçada, lembra? (Você tinha o dinheiro), não ajudou àquela senhora a atravessar à rua, quase atropelou a criança na avenida porque andava acima da velocidade permitida. Você mentiu para a sua esposa sobre onde esteve ontem à noite. Quer mesmo que ela acredite que você a ama quando ela descobrir a verdade? Acredite, ela irá descobrir!

Por que então não gritaria com você neste momento? Por que sufocaria meu desapontamento? Você é uma vergonha?! Responda a si mesmo, eu não preciso da resposta! Sou apenas um ponto perdido entre linhas. Uma sentença deslocada feita por um jovem amargurado. Eu sou a carta de um morto que ainda não deixou a vida. Um ponto de interrogação que jamais encontrará sua resposta. Não me interessa o resto! Não me interessa o seu constrangimento, visto que tudo o que aqui se encontra registrado, é apenas um reflexo da nossa angústia de cada dia.

Na nossa angústia de cada dia somos o enigma e a reticências sem conclusão. Não há mais palavras, não há mais tempo, não há mais respirar. Apenas a brisa contínua que sussurra na consciência, remontando cenas e espalhando estilhaços de nossa angústia compartilhada.

Por fim, resta-nos saber: quem é você nessa peça? O agressor ou o agredido? Será que os dois? Sim sim, não não? O medo? A coragem? Seria você o maniqueísmo esquecido? A virtude realocada? A interpretação no hermetismo? Ou um nada? Não, não poderia ser um nada, contudo alguma coisa! Quem sabe alguma coisa?! Uma parte entre os fragmentos, uma parcela da angústia, da nossa angústia, da nossa angústia de cada dia.

“O hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! E debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados, o tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.”
BRANDÃO, RAÚL.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

No limite do desejo: Um diálogo entre Machado e a Filosofia

Unknown


“HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que a nossa filosofia”. É assim que Machado de Assis, consagrado escritor da literatura brasileira do século XIX, inicia seu famoso conto: “A Cartomante”. Ao retornarmos alguns séculos na história, acharemos no contexto da Grécia Antiga, em “Carta a Meneceu (sobre a felicidade)”, a seguinte colocação de Epicuro:

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz.

Há de se concordar, porém, que nem mesmo a filosofia, com todo seu poder de persuasão, pôde poupar a vida de Camilo e Rita, protagonistas do referido conto machadiano. A saúde de espírito retratada por Epicuro, decidiu não comparecer ao encontro com a felicidade; mesmo quando este havia sido marcado com devida antecedência pela sabedoria e pela razão. Desse modo, restou para essas duas personagens apenas a força do desejo e a mutualidade da emoção; que numa sístole dinâmica e alquebrada, conduziu-lhes para a cilada de seus corações, no qual residia, reconditamente, o julgamento com seu olhar empedernido.

“... Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou- lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro...”

Machado encontra, a partir disso, os fios com os quais decide tecer sua história. Na Eudaimonia aristotélica de ser é que ele constrói o drama de seus personagens, numa tríade que abrange marido, mulher e amante, ou poderíamos dizer que se trata do enredo entre dois amigos e uma mulher? “A Cartomante” revela os devaneios de uma vida baseada em filtros, a vida que achamos saber viver, pautada em comportamentos que, através de Durkheim, a sociologia chama de Fato Social (a sociedade que se impõe sobre o indivíduo, determinando suas práticas e condutas).

No entanto, tais comportamentos serão violados pelo desejo voraz de dois corações apaixonados, que na busca incessante pelo prazer, acabam por padecer de agonia nas mãos de um homem amargurado, cuja ira se justifica pela aleivosia praticada pelos dois amantes. Vilela- melhor amigo de Camilo e marido de Rita- vê-se traído por todas as perspectivas de sua vida de homem da lei, por isso, ao enxergar no chão os estilhaços da realidade que os fatos lhe fizeram construir, partiu-se pelo bramido interno da existência, constatando deveras a traição que jamais lhe ocorrera ser tão cruel.

“... Camilo olhou para o mar estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável”.
[...]
“... Camilo não pôde sufocar um grito de terror:­­- ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão”.


O Rei do realismo clássico brinca com as coseduras de seu próprio enredo. É fácil perceber que a fragrância almíscar que se experimenta ao abrir-se as primeiras páginas e tocar o papel, essencialmente se diferencia do cheiro que sobe às narinas uma vez que tenhamos nos entregado à leitura. Assim, ao descortinarmos a trama- na qual a razão se opõe a utopia- extraímos substancialmente dela o sangue dos dois amantes, cuja coloração recebe o tom peculiar da filosofia, que por eles foi ignorada ao decidirem optar pela utopia representada no enredo pela figura da cartomante.

Após se encontrarem com a figura misteriosa dessa personagem, tanto Rita quanto Camilo se entregam à sensação de liberdade, uma liberdade que dispensa as normas e as convenções do Fato Social de Durkheim. Assim, constrói-se no enredo a sensação de uma vida ilimitada, que foge das responsabilidades estabelecidas pela sociedade, e que se entrega a procura intensa pelo prazer.

A Eudaimonia aristotélica em que se apoiam os protagonistas machadianos, ancora-se no sentido da felicidade para ambos, que veem nas palavras da cartomante a alforria para todos os seus males. Deve-se perceber, entretanto, que tal Eudaimonia é superada pela realidade concreta, uma vez que se evidencia nos últimos trechos, uma perspectiva muito diferente da que se define no húmus literário construído na maneira com a qual a imagem feminina de Rita, seduz e captura o jovem Camilo. No limite do desejo, portanto, é que ele se esquece dos padrões e com isso segue galopando rumo a estrada para a felicidade. No entanto o limite do desejo oferece muitos riscos, e é sobre ele, muitas vezes, que sustentamos as nossas vidas.

“Os desejos humanos são infindáveis. São como a sede de um homem que bebe água salgada, não se satisfaz e a sua sede apenas aumenta”.
Sutra Vaipolya


“O maior paradoxo do desejo não está em procurar-se sempre outra coisa: está em se procurar a mesma, depois de se ter encontrado”.
FERREIRA, Vergílio

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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resiliência. O que é?

Luiz Henrique Lopes
Natureza: exemplo de resiliência
Com certeza você já ouviu falar na palavra "resiliência" ou atentou à expressão: "Seja mais resiliente!". Não?! Então leia isto: seja mais resiliente! Contudo, você sabe o que significa resiliência?

O termo resiliência é oriundo do latim resiliens, quer dizer – em seu significado original, na Física, –o nível de resistência que um material pode sofrer frente às pressões sofridas e sua capacidade de retornar ao estado original sem a ocorrência de dano ou ruptura. A Psicologia pegou emprestada a palavra, criando o termo resiliência psicológica para indicar como as pessoas respondem às frustrações diárias, em todos os níveis, e sua capacidade de recuperação emocional.

Traduzindo de maneira bem simples, quando mais resiliente você for, mais fortemente estará preparado para lidar com as adversidades da vida. O termo possui diversos significados para a área da psicologia, a resiliência é a capacidade de uma pessoa lidar com seus próprios problemas, vencer obstáculos e não ceder à pressão, seja qual for a situação.

Qual a sua importância?

Todos nós temos problemas, não existe um ser milagroso na face da terra que não tenha tido uma adversidade na sua vida e aprender a lidar com essas adversidades é algo que todos querem, porém, parece que alguns "nascem" com isso. Na verdade, não acredito que a resiliência seja um traço genético, e sim, um traço acrescentado a personalidade da pessoal no decorrer de sua vida. Ou seja, seria o resultado de um processo de aprendizagens de vida. Portanto, você, assim como eu, está apto para desenvolvê-la.

"Desde a infância, pessoas que ativamente se esquivam das dificuldades ou que são isoladas dos problemas cotidianos (como fazem alguns pais para “poupar” a criança), deixam de “treinar” suas habilidades resilientes. Desta forma, quando crescem, tais indivíduos não conseguem apresentar repertórios adequados de enfrentamento aos problemas e, desta forma, perdem a habilidade de atravessar as situações de crise de maneira construtiva. Sua falta de habilidade faz com que reajam em excesso (aumentando assim o tamanho das adversidades) ou, no polo oposto, respondam de maneira passiva, ou seja, permanecem anestesiados frente aos dilemas, perpetuando-os." - Dr Cristiano Nabuco

Um dos princípios, ainda diz que em todas às situações adversas que passamos podemos compreendê-las de duas formas:

A primeira diz respeito a uma interpretação mais negativa dos fatos, ou seja, entendemos que coisas ruins que acontecem a nós estão fora de nosso raio de ação, pois não temos a menor responsabilidade a respeito de sua ocorrência. Nesta posição, como não temos controle pelo acontecido, não exibimos nenhuma atitude de mudança. E, assim, assumimos uma postura de vítima das circunstâncias da vida.

Uma segunda possibilidade diz respeito a uma interpretação mais ativa dos fatos, ou seja, podemos assumir que parte dos problemas e das dificuldades que vivemos dizem única e exclusivamente respeito a nossa forma de agir no mundo, e portanto, entendemos que possuímos alguma responsabilidade sobre o fato.

“Não importa o que fizeram conosco, mas sim o que fazemos com aquilo que fizeram de nós”

Veja também:
Qual o sentido da felicidade?

Afinal, como se tornar uma pessoa resiliente?

Se você encara as mudanças e as adversidades como oportunidades, você já tem um bom começo. "É aceitar que a mudança é uma oportunidade de crescimento, ter a visão de que as adversidades enfrentadas trazem essa possibilidade". A autoconfiança¹ e a autoeficácia² são pontos que também contam para esse processo, além de está de bem com a vida: ter um bom humor, ser otimista, criar empatia e valores sociais e se socializar.

¹Autoconfiança: é a convicção que uma pessoa tem, de ser capaz de fazer ou realizar alguma coisa. Um comportamento relacionado à segurança que a pessoa tem para encarar as diversas situações que se apresentam. “É a pessoa se sentir confiante para enfrentar desafios”

²Autoeficácia: Refere-se à percepção que a pessoa tem da sua própria capacidade.“É acreditar na competência, se sentir capaz”. Muitas vezes a pessoa pode até não ter potencial alto de inteligência, mas se tiver autoeficácia, vai se esforçar além do normal o que acabará compensando eventuais deficiências.


Finalmente, o tripé da resiliência se apoia na capacidade de compreender o que sentimos. Pode parecer algo mais simples, entretanto, não é o que ocorre. Vivemos usualmente sem entrar em contato com nossas sensações subjetivas e isso pode nos confundir bastante. Estar atento aos nossos sentimentos é uma das maneiras mais simples de desenvolver nossa capacidade de enfrentamento emocional. "Entenda que estar em contato com nossas emoções nos faz sermos mais ágeis na busca daquilo que efetivamente nos faz bem, como também na evitação das situações que nos fazem mal. É a chamada inteligência emocional." Tal inteligência está diretamente ligada ao controle emocional, que permite a pessoa agir com mais calma e a não perder o foco. Quem tem autocontrole consegue expressar adequadamente sua emoções o que permite enfrentar melhor situações difíceis. Desenvolva um papel ativo em sua vida (não se sinta vítima de sua existência), elabore um grande projeto pessoal (caso ainda não o tenha) e finalmente entenda suas emoções (lidar com elas e saber controla-las é essencial para a evolução de sua resiliência.

Pesquisando um pouco sobre o assunto, eis que me deparo com a seguinte crônica de Clarice Lispector:

Quando a procura de um papel se torna inútil, pergunto-me: "se eu fosse eu, em que lugar eu o guardaria?” E complementa dizendo: “Quando eu acho o objeto perdido, fico tão absorvida com a pergunta ‘se eu fosse eu’, que eu começo a pensar, diria melhor, sentir”. E finaliza indagando: “leitor, se você fosse você mesmo, quem você seria e onde estaria?”. Conclui sua crônica dizendo: “É como se a mentira fosse lentamente movida do lugar onde se acomodara e temos então contato com a experiência real da vida.

Procure usar essa pergunta, pode parecer inútil, mas melhora sua vontade de manter o foco e correr atrás do seu objetivo. No mais, complemento esta parte dizendo: Não espere que os outros resolvam os problemas por você: pode ser difícil, mas dê um passo de cada vez e aguarde a passagem do tempo para que tudo volte ao normal. Lembre-se que os problemas têm um fim. Seja resiliente, encare-os. Dificilmente eles irão acompanhá-los para o resto da vida. Mas tais são como leões famintos, se você não conseguir doma-los, eles te perseguirão até o fim.

Finalizo meu texto com um questionamento: se você fosse você mesmo, como você agiria?

Abraços senhores.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Qual o sentido da Felicidade?

Unknown

          Sentado na calçada fria em um dia nublado, questiono-me a respeito do sentido da felicidade. Considero a priori muitas semânticas, a fim de evitar cometer certos equívocos e para não correr o risco de delirar ao fazer-me importante; julgando ser meu posicionamento superior à visão alheia. Assim como J. Jacques Rosseau, acredito que “...depende de mim não abundar no meu sentido, não acreditar ser sozinho mais sábio do que todo mundo; depende de mim desconfiar de meu sentimento e não mudar de sentimento.” Nesse sentido, digo que minhas experiências são minhas e que são importantes; entretanto convido-lhes a relativizar tais colocações e fazer desta mensagem a sua mensagem, em seu próprio universo particular.
          A felicidade é um estado não permanente de alegria. Não a encontramos disponível nas vitrines dos Shoppings que frequentamos, não podemos enxergá-la ao virarmos a esquina com pretensão de achá-la, nem quando a perseguimos obstinadamente como um predador faminto faz com sua caça; sentindo o aroma e captando os sinais. Quando passamos a procurá-la, deixamos de encontrá-la; e quando a encontramos nós a perdemos de vista, porque somos incapazes de valorizá-la. Não a valorizamos, porque a desconhecemos; e a desconhecemos porque nos recusamos a enxergar a banalidade com seus retalhos, por isso nós a embaçamos; encandeando-a como faz aos olhos a luz do Sol.  
          Não poderia discorrer sobre tal assunto sem recorrer à Epicuro, filósofo que em sua utopia muito dissecou este tema, amparando-se na sabedoria que enxerga a realidade concreta, mas que simultaneamente também se apropria do misticismo que à luz de seu tempo a ela justifica. Para esse autor a felicidade é resultado de uma vida baseada na prudência, na beleza e na sensação. Estamos mortos, segundo ele, quando não podemos mais sentir.
          Para Epicuro o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Não obstante, defende que é preferível abdicar de alguns prazeres e escolher por vezes as dores, do que seguir os desejos de maneira deliberada; sem avaliá-los de acordo com o critério dos benefícios e dos danos que advêm de cada um. Nessa perspectiva, afirma que é preferível que permaneçamos no sofrimento por algum tempo para que possamos obter, a posteriori, um prazer que seja maior e mais duradouro do que aquele gerado pelas escolhas ocasionais e momentâneas.
          Em minha singela visão, a autorreflexão seria a melhor forma de gerenciarmos a nossa busca pelo prazer; não sendo possível de alcançá-la, porém, sem a manifestação da ação e do comprometimento com os nossos ideais. É inútil identificar as causas do sofrimento e descobrir uma forma de acessar o caminho para a libertação se não formos capazes de dar as primeiras passadas. Verdade é que as pernas bambearão, que ralaremos os joelhos bem como tropeçaremos nos buracos feitos pelas cicatrizes de nossos corações, todavia mesmo que a estrada seja íngreme e sujeita a desabamentos, sem a ação e a moralidade do comprometimento não chegaremos a lugar algum, permanecendo inertes em nosso sofrimento solitário.
          Epicuro também afirma ser a ação sobre a vida deveras importante, haja vista que apesar de não termos garantias de um porvir, não temos, outrossim, a garantia de que não haverá um futuro e de que tudo se encerra no presente. Portanto exercer ação sobre a vida e se posicionar de maneira proativa diante dela, é uma forma de combater a angústia da existência perseguida ou desejada; a angústia que se tem por sofrer por antecipação derivada de coisas que ainda virão e que podem não vir. Dessa forma, que seja o presente uma ferramenta de decisão sobre a realidade vivida, e, que este se projete sobre a realidade sonhada; visto que a felicidade frui pela apreciação do que existe e daquilo com o qual nos relacionamos e interdependemos. Na visão de Epicuro, as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; entretanto a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre.
          Pessoalmente definiria a felicidade como um momento. Um momento desprovido de intenção, um momento como aqueles que simplesmente acontecem e que mesmo assim tornam tudo diferente. A felicidade é como o abraço apertado de uma criança que te motiva a fazer do presente algo bom, como o sorriso apaixonado de um casal de velhinhos no parque, ou um momento que paramos para olhar o céu, é como ver seu filho se sujando ao comer torta e rir do bigodinho que fica depois que ele toma o mingau. É como tomar banho depois de um dia quente e sentir o calor do cobertor durante uma noite fria. O sentido da felicidade para mim é desistir dela, recorrendo à prudência de viver sem a espera de ser feliz, haja vista que não somos felizes, estamos felizes. Por isso nunca se esqueça de refundir seus enredos, pois “... o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.”

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