A excelência tornou-se algo implacável na sociedade contemporânea. Em uma resposta simples ao título deste texto, poderia afirmar que tudo isto surge a partir da alta demanda por informações e conhecimento proporcionada pela Revolução Científica, além da busca incessante pela tão cobiçada qualificação requisitada para o ingresso no mercado de trabalho.
Entretanto, essa é uma resposta batizada e casada, por mais que seja verdade. A busca pela excelência na atualidade é muito mais que um simples fenômeno histórico. Basta notar que excelência tornou-se sinônimo de superioridade para perceber que essa qualidade passou a ter um papel crucial, independente de idade, raça, gênero ou nação, em nossa cultura. Tudo isso graças a uma rede complexa e intrínseca, que liga as pessoas diretamente através dos anseios internos e pressões proporcionados pelas relações interpessoais de cada indivíduo.
Joãozinho é uma criança de 14 anos. Ele busca a excelência na escola porque é pressionado por seus pais, jovens adultos, para que tenha uma vida “digna” e não precise ser pressionado no trabalho, assim como eles o são por seus chefes, donos de empresas, coordenados e sustentados por um mercado cada vez mais exigente. Em decorrência disto, o dono da empresa explode com sua filha, que por sua vez, namora com Ricardinho. Procurando a excelência no namorado, ela termina com ele depois de várias tentativas frustadas de fazê-lo aprender a tocar flauta irlandesa. Ricardinho, angustiado pelo motivo tolo do término, revolta-se e desconta tudo em seu irmão mais novo, Marinho. Com apenas 4 anos, Marinho absorve a raiva do irmão e aprende a odiar também.
Na perspectiva maquiaveliana somos seres desejantes. Buscamos a excelência no outro porque almejamos aquilo que não temos, suprindo a necessidade e o desejo a partir de algo idealizado. Algo familiar acontece com a inveja, uma resposta básica ao desejo aparente por aquilo que pertence a outrem. Em síntese, Bernado Soares, pseudônimo de Fernando Pessoa, foi extremamente feliz e categórico ao afirmar:
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito.
Com isso, organização e planejamento tornaram-se rotina para a maioria das pessoas, uma vez que estes dois aspectos pressupõem (ou pelo menos maximizam as chances) a excelência. Os dias passaram a ser metódicos, de tal maneira que se algo sai do controle, há estresse e raiva. As interações não possuem mais o charme de antes, são curtas e previsíveis. Os beijos e as demonstrações de afeto foram substituídos por emoticons pré-determinados para cada situação. Os manuais se tornaram populares ao passo que os livros de filosofia foram substituídos por receitas prontas para uma vida de sucesso.
Acontece porque somos humanos e fazemos parte de uma cultura. Somos alimentados por ela inconscientemente, seguimos padrões comportamentais, muitas vezes considerando-os úteis e benéficos para o ser. A procura pela excelência não é diferente: pode parecer algo admirável, de grande relevância e demonstração da boa ambição (ser melhor sempre), porém, traz consigo consequências drásticas para o desenvolvimento emocional das pessoas. Não é á toa os números mostrarem que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo, um número cada vez maior, visto que nenhuma doença teve maior crescimento em 10 anos como a já considerada “doença do século” (18,4% de 2005 a 2015).
A excelência é importante, mas o equilíbrio se sobressai. Não importa o quanto tente, uma característica inevitável de todo ser humano vai prevalecer até o fim dos tempos, o grande problema é que com ela não há perfeição: o ser humano é errante. Aceite sua falha e assuma o risco.
Como sempre seremos humanos, nunca seremos totalmente excelentes. Somos alquimistas. Eis a pedra filosofal moderna!

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