"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."
Sêneca
Aplausos iniciaram o vídeo. Em seguida, acompanhada de dedilhados de guitarra e da excitação de uma plateia vibrante, Elis Regina- um dos mais consagrados nomes da música popular brasileira- inicia com vigor sua apresentação.
Ela pressiona contra si o microfone, elucidando a energia de uma mulher brasileira através de seus murmúrios denodados. A bela mulher de cabelos curtos revela ao seu amor as coisas que veio a aprender com a vida; trocando, desse modo, os momentos exatos contidos nos discos, por experiências, nem sempre salutares, cujo sentido se aplica unicamente à esquina.
Elis não quis cantar o amor que não é experimentado, o amor preso aos acordes e lirismos. Todavia, abriu seu coração para exprimir uma canção que nos entrega, denunciando-nos assim “Como nossos pais”, tal qual seres confusos e perplexos com a realidade do viver; este viver simplesmente singelo, que de nós escapa com frequência.
Na poesia desses versos, a cantora advertia sobre a realidade que não se encontrava delineada nas linhas, mas que se manifestava nas ruas, como no murmúrio de uma gestante com dores de parto.
Outrossim, mediante aos arrolhos perpassados em cada estrofe declamada, aproxima-se à memória de cada interlocutor atento, a catarse semelhante ao medo real e expressivamente desapercebido de quando se corta o cordão umbilical ou muda-se a passada; rememora-se o medo de correr na esquina em dias de chuva, de frear para não ter que colocar os pés no chão ou de trocar de posição, de olhar com os olhos de alguém que não sou eu, mas que, contudo, assim como eu, pensa, existe e se alimenta. Um alguém no mundo, na esquina, um alguém que é como o retrato na parede, empoeirado e vazio.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não me enganam não!
Você diz que depois deles,
Não apareceu mais ninguém.
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então, eu tô inventando;
Mas é você que ama o passado e que não vê!
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...”
Elis Regina foi heroica naquela noite. Sua bravura encontra-se descoberta na expressão voraz de uma amante da arte, que se fez artista e, se fez na arte. Seus medos foram revelados, sua alma foi rasgada na garganta quebrantada, desesperada e igualmente desbotada pelas lágrimas de jovens esquecidos, traduzidos na canção por meio da expressão de um desejo: o desejo de saber viver.
Confessar nossas crises muitas vezes não é o caminho mais conveniente para emular o passado e se ver livre da culpa, entretanto, as coisas só se fazem no actus sensus de nossas crises.
Saber viver não é uma fórmula matemática com algarismos e igualdades. Se assim fosse, seria como a resposta de uma raiz quadrada negativa, identificada através do estudo de pequenos ou grandes números complexos, que mais ou menos representam a vida com seus altos e baixos.
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O saber viver é a poesia de um coração selvagem, que luta porque necessita, que reconhece poder ser quebrado, mas que tenta enfrentar seus defeitos, suas incompletudes e ausências de ser.
Apesar disso, não se pode dizer que a música interpretada por Elis Regina possa ser comparada ao canto de um liberto. Contudo, é evidente que há liberdade nesses versos, visto que originam-se da força de um grito sincero, como o de um filho ao perder sua mãe ou o de uma mãe a se ver sem seu filho. Além disso, as palavras amarradas à canção cumprem a função de metaforizar a verdade existente nos desencontros de uma vida, que passa como o disco na vinheta. De outro modo, Elis ironiza a tentativa de executar mudanças, pois:
“Apesar de tudo, tudo, tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais.”
A verdade dessa interpretação está na pessoalidade com a qual a artista se faz de eu lírico e toma as concretudes de alguém, invertido na confluência de pensamentos, emoções, sentidos e expressões. Destarte, é possível facilmente identificar que as fases pelas quais se encontram cada ouvinte da música é que determinarão a intensidade com a qual tais palavras atingirão seu ego impactado, o que é irrelevante, haja vista que todos estamos perdidos no saber viver, porquanto nos arranhamos nas diferentes cercas que construímos em torno de nossas verdades e modelos de vida pessoais.
Uma noite foi suficiente para que a cantora aferrolhasse as depreensões individuais, e envolvesse a todos em uma bolha de reflexões e perspectivas; tornando-se o ponto chave de tais premissas. O saber viver é algo inconclusivo, entretanto, é nobre e palpável; desde que a ele sejam destinados devida energia e dedicação, para seguir em frente mesmo quando a maioria dos porquês permanecem para sempre como incógnitas.
Por fim, não importam as condições bem como as intempéries no meio do caminho, caso haja, em seu modo de viver uma forma espontânea e livre como na interpretação de Elis, que foi livre em sua decisão de revolta e em sua interpretação furiosa e emocionada.
Refaça, portanto, suas estruturas, acerte seus ponteiros, caminhe em sua construção mesmo que ela desmorone, visto que este é o saber viver, este é o caminho, o ninho e o pássaro.
“A única coisa que devemos temer é o próprio medo”
- Rossevelt, Franklin.
“É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.”
Woolf, Virginia.

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