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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

No limite do desejo: Um diálogo entre Machado e a Filosofia

Unknown


“HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que a nossa filosofia”. É assim que Machado de Assis, consagrado escritor da literatura brasileira do século XIX, inicia seu famoso conto: “A Cartomante”. Ao retornarmos alguns séculos na história, acharemos no contexto da Grécia Antiga, em “Carta a Meneceu (sobre a felicidade)”, a seguinte colocação de Epicuro:

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz.

Há de se concordar, porém, que nem mesmo a filosofia, com todo seu poder de persuasão, pôde poupar a vida de Camilo e Rita, protagonistas do referido conto machadiano. A saúde de espírito retratada por Epicuro, decidiu não comparecer ao encontro com a felicidade; mesmo quando este havia sido marcado com devida antecedência pela sabedoria e pela razão. Desse modo, restou para essas duas personagens apenas a força do desejo e a mutualidade da emoção; que numa sístole dinâmica e alquebrada, conduziu-lhes para a cilada de seus corações, no qual residia, reconditamente, o julgamento com seu olhar empedernido.

“... Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou- lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro...”

Machado encontra, a partir disso, os fios com os quais decide tecer sua história. Na Eudaimonia aristotélica de ser é que ele constrói o drama de seus personagens, numa tríade que abrange marido, mulher e amante, ou poderíamos dizer que se trata do enredo entre dois amigos e uma mulher? “A Cartomante” revela os devaneios de uma vida baseada em filtros, a vida que achamos saber viver, pautada em comportamentos que, através de Durkheim, a sociologia chama de Fato Social (a sociedade que se impõe sobre o indivíduo, determinando suas práticas e condutas).

No entanto, tais comportamentos serão violados pelo desejo voraz de dois corações apaixonados, que na busca incessante pelo prazer, acabam por padecer de agonia nas mãos de um homem amargurado, cuja ira se justifica pela aleivosia praticada pelos dois amantes. Vilela- melhor amigo de Camilo e marido de Rita- vê-se traído por todas as perspectivas de sua vida de homem da lei, por isso, ao enxergar no chão os estilhaços da realidade que os fatos lhe fizeram construir, partiu-se pelo bramido interno da existência, constatando deveras a traição que jamais lhe ocorrera ser tão cruel.

“... Camilo olhou para o mar estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável”.
[...]
“... Camilo não pôde sufocar um grito de terror:­­- ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão”.


O Rei do realismo clássico brinca com as coseduras de seu próprio enredo. É fácil perceber que a fragrância almíscar que se experimenta ao abrir-se as primeiras páginas e tocar o papel, essencialmente se diferencia do cheiro que sobe às narinas uma vez que tenhamos nos entregado à leitura. Assim, ao descortinarmos a trama- na qual a razão se opõe a utopia- extraímos substancialmente dela o sangue dos dois amantes, cuja coloração recebe o tom peculiar da filosofia, que por eles foi ignorada ao decidirem optar pela utopia representada no enredo pela figura da cartomante.

Após se encontrarem com a figura misteriosa dessa personagem, tanto Rita quanto Camilo se entregam à sensação de liberdade, uma liberdade que dispensa as normas e as convenções do Fato Social de Durkheim. Assim, constrói-se no enredo a sensação de uma vida ilimitada, que foge das responsabilidades estabelecidas pela sociedade, e que se entrega a procura intensa pelo prazer.

A Eudaimonia aristotélica em que se apoiam os protagonistas machadianos, ancora-se no sentido da felicidade para ambos, que veem nas palavras da cartomante a alforria para todos os seus males. Deve-se perceber, entretanto, que tal Eudaimonia é superada pela realidade concreta, uma vez que se evidencia nos últimos trechos, uma perspectiva muito diferente da que se define no húmus literário construído na maneira com a qual a imagem feminina de Rita, seduz e captura o jovem Camilo. No limite do desejo, portanto, é que ele se esquece dos padrões e com isso segue galopando rumo a estrada para a felicidade. No entanto o limite do desejo oferece muitos riscos, e é sobre ele, muitas vezes, que sustentamos as nossas vidas.

“Os desejos humanos são infindáveis. São como a sede de um homem que bebe água salgada, não se satisfaz e a sua sede apenas aumenta”.
Sutra Vaipolya


“O maior paradoxo do desejo não está em procurar-se sempre outra coisa: está em se procurar a mesma, depois de se ter encontrado”.
FERREIRA, Vergílio

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Transformamos os desejos, e não por raras vezes, em proposições irrefutáveis sobre as quais delineamos os traços que definem nossa existência. A partir do desejo é que sincronizamos os acordes que enredam nossa história, liderando nossos sonhos e conduzindo nossas práticas. Na orquestra da vida, por sua vez, comportamo-nos como uma mulher faminta e sedenta, que avidamente agarra o pão embolorado e se satisfaz ao beber de águas charcosas, por achar nesses recursos a única fonte possível para a sua sobrevivência. Motivados pela necessidade de obter prazer a qualquer custo, deixamo-nos ludibriar pelo sentido das aparências, ofuscando assim a correta visão sobre a realidade.

De maneira semelhante aos personagens da obra de Machado, passamos a militar diariamente na busca implacável pela felicidade. Razoável é, que utilizemos para acessar este caminho, diferentes recursos que possam contemplar a expectativa de nossos anseios; transformando dessa maneira o objeto de desejo em matéria concreta. Nessa perspectiva, encaixam-se as palavras de conforto de uma cartomante em um enredo do século XIX, bem como a leitura diária do horóscopo no contexto do século XXI.

Destinamos à realização de nossos desejos, toda a energia disponível em nosso estoque interior; perseguimos o prazer tal como dois personagens apaixonados se esforçam para encontrar um ao outro, esquecendo-se, contudo, que tal feito remeteria não apenas a traição de um matrimônio como também a destruição de uma amizade. Edificamos nossa realidade sobre castelos de areia e em seguida intercedemos para que tais estruturas sejam capazes de aguentar o peso de nossas projeções. Quando estas finalmente desmoronam, choramos porque nossas preces não foram atendidas e passamos a desacreditar de nossas próprias emoções, julgando encontrar, a partir disso, um senso qualquer do que seja racional.

A morte de Rita e Camilo, nesse contexto, representa a vida que achamos saber viver; a vida que acreditamos experimentar genuinamente através da conquista de certos aspectos físicos da realidade, e que, portanto, acaba por se desmanchar em nossas mãos, como um adeus perdido que só existe na lembrança de quem o evocou.

Por esse motivo e muitos outros, necessário é que sejamos dementes e que fortaleçamos os laços com a filosofia; visto que é por meio dela que podemos acessar a consciência sutil sobre a qual se desenvolve a saúde de espírito, que em sua carta a Meneceu sobre a felicidade, inicialmente nos foi apresentada por Epicuro. Além disso, que venhamos igualmente nos utilizar da ironia apregoada por Machado de Assis, no fito de desfazer em nós mesmos, os nós que construímos a respeito da realidade.

Por fim, quer acreditemos ou não, assim como Hamlet defendia: há mais coisas no céu do que a nossa filosofia. Contudo, sem a filosofia o céu não tem sentido, e as coisas na terra são sombras que jamais poderão ser contempladas.

“A vida é uma peça de teatros que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e ria intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."
(Autor Desconhecido)

Unknown / Autor & Editor

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