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domingo, 13 de maio de 2018

A nossa angústia de cada dia

Unknown

Uma carta de suicídio sem remetente; um anonimato sem culpa, sem como e sem por quê. 

É possível que a presença sombria de um talvez melhor pudesse expressar as palavras sentenciadas a seguir. Sem dúvida, a existência certa de um talvez concreto, pudesse ser melhor compreendida do que essas linhas desordenadas. No entanto, elas são a única coisa que eu tenho agora, a única coisa que me restou e que estou apto a compartilhar.

Não quero arrancar de vocês suspiros, nem quero que chorem por minha morte. Bem provável é, que meu desejo mais voraz seja o de deixar a cada um de vocês, a lembrança inóspita de um luto proibido, um luto com lágrimas roubadas, lágrimas que deixaram de escorrer pelos olhos. Aprendi com o tempo que as expectativas se fazem de sonhos banais, sonhos simples, como aqueles construídos na rotina de uma vida comum. O desejo de respirar numa montanha rarefeita melhor traduziria minhas palavras, mas nem todos podem escalar essa montanha.

Não existe em nenhuma dessas linhas qualquer resquício de esperança. Não reside nelas nem fé e nem prece, o que existe é apenas um grito sufocado de quem sobreviveu a mais um dia. Se estiver interessado em prosseguir com essa leitura, saiba que este é um caminho sem volta, uma vez que tenha optado por imergir nele, jamais poderá retornar à superfície, ainda que saiba exatamente qual seja o caminho de volta.

Se estas palavras pudessem exprimir um som, qualquer um que fosse, este seria descompassado como o choro de um recém-nascido com cólica. Cada linha é uma nota sem tom, um fremido disperso de quem fala e tenta ser compreendido, um pensamento desesperado de quem tenta mostrar sua intenção, mas que se perde na configuração dispersa das formas, que constituem o viver da vida com suas condições!

A vida é o diretor e nós somos o elenco desajustado, sujeito à mudança de roteiro e de cenários. Sorria mais- ela diz! Seja mais forte, seja mais magro, seja mais inteligente, os outros estudam enquanto você dorme, alguns malham enquanto você come pizza e se empanturra de doce! A vida grita e você obedece sem querer obedecer, como um fantoche controlado pelas mãos de um condutor aborrecido, que não se importa com limites e nem com o psicológico. Você só quer fugir sem ser notado, todavia ela te pega pelas mãos para te relembrar dos defeitos que, outrora, você estava disposto a esquecer.

A tinta preta dessas linhas revela as chagas profundas que jazem sobre mim, chagas de um relacionamento no qual a fêmea apanha do macho, sempre sujeita à criação abusiva de uma cultura misógina e machista. São dois órgãos que se encaixam na cama, mas cuja penetração somente ao macho dá prazer. A fêmea aguenta calada, aos tapas e arranhões, ela conta os segundos e minutos, rememorando longinquamente a existência de um homem que um dia a ela ofereceu rosas vermelhas, vermelhas como o sangue que agora escorre de suas partes inflamadas. São parceiros esquecidos, humanos que se desencontraram entre as influências de um tecido social mal projetado; homem e mulher: eis a criação de Deus!

Na nossa angustia de cada dia, encontra-se o menino de 5 anos abusado sexualmente por dois primos drogados. Nela está também a garota gorda do 7º ano, chamada de burra pela professora de matemática, que não impediu que seus colegas rissem de sua resposta algébrica equivocada. Nessa angústia de cada dia está a empregada negra que não pôde ir à escola. Está o menino autista escondido em casa pela mãe que não o permite ver o mundo. Está também o jovem viciado, que faz programa para não ter que roubar seus pais, ele descobriu há pouco que tem HIV, mas fazer o quê? Sem camisinha paga mais!

Nessa existência angustiante encontra-se a mãe, que tenta explicar para os seus filhos que depressão não é frescura, mas uma doença que rouba a sede de viver. Nessa existência angustiante, mora o idoso explorado pelos netos, que roubam-lhe a aposentadoria, deixando-o à míngua, com fome e necessidades. Tudo isso está contido nesta existência bandida, neste luto negado, neste choro de recém- nascido.

A nossa angústia de cada dia é o grito que você recusa ouvir, é o eco perdido no espaço-tempo, que jamais regressará ao seu emitente. Nossa angústia é a oração não atendida, é a liberdade negada e o perdão cujo sentido foi desbotado pelas lágrimas no retrato. Não me leve a mal pelas palavras não maquiadas, pelas lágrimas não permitidas, por você não ter o direito de chorar!

Porque você viu e não fez nada! Nem ao menos consolou a garotinha perdida no parque procurando por seu pai. Negou 2 reais para o mendigo na calçada, lembra? (Você tinha o dinheiro), não ajudou àquela senhora a atravessar à rua, quase atropelou a criança na avenida porque andava acima da velocidade permitida. Você mentiu para a sua esposa sobre onde esteve ontem à noite. Quer mesmo que ela acredite que você a ama quando ela descobrir a verdade? Acredite, ela irá descobrir!

Por que então não gritaria com você neste momento? Por que sufocaria meu desapontamento? Você é uma vergonha?! Responda a si mesmo, eu não preciso da resposta! Sou apenas um ponto perdido entre linhas. Uma sentença deslocada feita por um jovem amargurado. Eu sou a carta de um morto que ainda não deixou a vida. Um ponto de interrogação que jamais encontrará sua resposta. Não me interessa o resto! Não me interessa o seu constrangimento, visto que tudo o que aqui se encontra registrado, é apenas um reflexo da nossa angústia de cada dia.

Na nossa angústia de cada dia somos o enigma e a reticências sem conclusão. Não há mais palavras, não há mais tempo, não há mais respirar. Apenas a brisa contínua que sussurra na consciência, remontando cenas e espalhando estilhaços de nossa angústia compartilhada.

Por fim, resta-nos saber: quem é você nessa peça? O agressor ou o agredido? Será que os dois? Sim sim, não não? O medo? A coragem? Seria você o maniqueísmo esquecido? A virtude realocada? A interpretação no hermetismo? Ou um nada? Não, não poderia ser um nada, contudo alguma coisa! Quem sabe alguma coisa?! Uma parte entre os fragmentos, uma parcela da angústia, da nossa angústia, da nossa angústia de cada dia.

“O hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: - A morte! A morte! E debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados, o tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.”
BRANDÃO, RAÚL.

Unknown / Autor & Editor

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